A onça que lambia pé

31/07/2015 - enviado por: Maria Mineira leia apenas este causo 0 Comentários


Cibalena é um analgésico conhecido há décadas, houve tempo que esse
comprimido era inflamável. Me parece que veio daí o apelido ...Ele
era um sujeito trabalhador, mas quando bebia saía da vendinha sem
saber o rumo de casa.

Uma noite, após a saideira, Cibalena despediu-se dos amigos e foi
embora levando debaixo do braço uma garrafa de aguardente. Para
encurtar caminho, resolveu ir pelo atalho que passava no meio da
mata.

As árvores deixavam a trilha escura; ele tropeçando, andava a passos
lentos, até que numa clareira, avistou uma grande arapuca armada com
uma galinha presa lá dentro. Alegre, imaginou que já estava
garantido o almoço do dia seguinte. Mesmo porque, achado não é
roubado...

—Quê qui ocê tá fazeno aí, suzinha, minha fia? Tá cum medo, não?
Povo fala qui esse mato é cheiim de onça e arma penada.
A galinha cochilava e nem deu trela à falação do Cibalena.

— Cê qué vimbora cumigo? Si quisé é só falá, qu’eu vô aí e disato
ocê e levo pa minha casa. Qui ruindade fizero cocê, dexano aí pá
sirvi de isca prus bicho...Ê povo marvado! As galinha tamém é
fidideus, uai..Mais podexá, ieu ti sarvo e tiro ocê dessa friage,
inté dô um golim dessa pinga procê isquentá o bico...

Decidido a levar a galinha, se abaixou e foi engatinhando para
resgatar a ave, porém, houve um imprevisto...A arapuca desarmou,
aprisionando-o.

Cibalena gritou, esperneou e não conseguiu sair. Apenas seus pés
ficaram fora das grades. Tonto, de bruços, o rapaz ouvia miados de
gatos do mato, piados de coruja, canto de curiangos e uivos de lobo-
guará.

Depois que se acalmou um pouco, reatou a prosa com a companheira de
penas.

—Tá veno, Chiquinha, o qui ocê feiz? Num vô ti perduá nunca...
Curpa sua ieu tô preso nessa gaiola, viu?

—Num dianta nada mi oiá cum esses zoim de pexe morto e nem pidi
discurpa. Agora tamu nóis dois aqui pá sirvi de cumê pas onça.

—Num fica caladinha assim, Sá... Bebe mais um golim...Tá sintino um
chêro de café torrado? Ah, ocê num tem nariz, né? Ieu tô!
Crendeuspai, onça é qui chêra assim... Chiquinha si ieu num tivesse
fechado aqui, ieu ia rapá no pé. Minha nossinhora dos afritos mi
acode!

Um arrepio lhe percorreu a espinha fazendo-o entrar em pânico.
Imobilizado, não podia se virar e ver o animal, mas sentiu um
focinho frio fungando nos seus pés.

—Chiquinha...Num oia agora, ieu tô achano que tem um trem quereno
mi cumê...Tá lembeno o meu pé isquerdo...Ihh! Agora lembeu o outro e
deu uma murdidinha no dedão... Aiiii! Tá fazeno cosquinha...Manda
essa onça fedazunha pará, Chiquinhaaaa!!

Cibalena gritava sem conseguir se mexer, se sentia prestes a perder
os dois pés, que estavam sendo lambidos e, na falta de coisa melhor,
iam virar comida de onça.

—Se ieu num tivesse ingastaiado aqui, cê ia vê, ieu ia deitá o
braço nessa onça, rolá no chão e tirá o côro dela, cê ia vê só...
Uai, num tô sintino mais os meus pé! Acho qui ela já cumeu os dois
duma bocada só...

—Chiquinha...Cumé qu’eu vô carçá as butina amanhã cedo?

Ao amanhecer, os biólogos que estudavam os hábitos do lobo-guará da
Serra da Canastra, encontraram Cibalena preso na armadilha. Ele
estava em estado de choque, com os olhos arregalados e, quando foi
retirado lá de dentro, não disse uma palavra: saiu correndo e sumiu
no mato.

Amoitado

10/07/2014 - enviado por: Maria Mineira leia apenas este causo 1 Comentários


Antigamente por motivos de festas, novenas, terços, ou às vezes, simplesmente pelo prazer de passar horas agradáveis conversando, as famílias moradoras na roça tinham o costume de se visitarem e até "pousar" na casa de parentes e amigos, indo embora só no outro dia à tarde.

Dentre as muitas visitas dos compadres à casa de meu avô, lembro-me especialmente de certa vinda de alguns tios trazendo seus filhos para a reza de um terço.

Era uma verdadeira festa o encontro da “primaiada”. Durante o dia a turma andava a cavalo, caçava ninhos de galinha no mato, brincava com cães e gatos, nadava no corguinho, corria pelo quintal, subia em árvores, comia fruta no pé. Se fosse tempo de mexerica enredeira a presença era notada de longe. Época de manga então, não se comia outra coisa, só manga o dia todo!

Criança de roça estava sempre faltando uma unha do dedão, tinha pés cheios de espinhos, pernas e braços arranhados, mas, era muito feliz! Não esqueço uma vez em que brincávamos a sombra de uma aroeira desobedecendo á recomendação de que ficássemos longe daquela árvore. O João, meu primo, querendo mostrar coragem esfregou várias folhas no rosto. O menino ficou irreconhecível de tão empipocado e com a cara inchada e vermelha.

No fim do dia, após a janta, as mulheres conversavam sentadas no banco grande da cozinha. Falavam de tudo: Fazeção de polvilho, receitas de doces e biscoitos, chás para todas as doenças... Na sala os homens jogavam truco fazendo muito barulho. Lembro-me do Tio Roque, sempre exagerado. Ele chegava a subir na mesa sapateando e gritando: truco, um dois, três!

À noite, no terreiro enluarado, corríamos atrás dos vagalumes, coisa emocionante! Além disso, entre as nossas brincadeiras estava o Chicotinho queimado a Barra manteiga, porém, o preferido era Pique-esconde. Um participante ficava com rosto na parede e contava até trinta bem devagar, enquanto o resto da turma se escondia espalhando-se por todo canto. Seria vencedor o último a ser encontrado.

Num desses dias, eu e um casal de primos fomos nos esconder pros lados da varandinha do paiol. Ali se guardavam arreios dependurados, tuias, latas antigas de guardar manteiga, tachos, caixas de madeira e couro, cordas, laços e várias ferramentas. Tinha até abóboras maduras amontoadas num canto.

Helena e eu sugerimos que Toninho se amoitasse dentro de uma das caixas vazias e colocamos a tampa por cima. Depois cada uma de nós procurou um lugar seguro e se escondeu também...

A brincadeira estava muito divertida e durou até altas horas quando fomos chamados pelas mães. Era hora de dormir. Nos quartos os colchões de palha estalavam de tão cheios, anunciando um sono cheio de sonhos.

Muitas horas mais tarde acordei assustada e chamei Helena que dormia perto de mim.

—Leninha, acorda! Nóis esquecemo o Toninho dento da caixa na varandinha dos arreios!

—Minha nossa, Mariinha! Tadim dele deve tê murrido sem ar!

Era madrugada quando saímos pé ante pé, para não acordar ninguém. Levando uma lamparina, seguimos pelo terreiro, indo em direção ao paiol e à varandinha dos arreios.

Com o coração apertado rezávamos para que o primo ainda estivesse vivo. Assim que abrimos a caixa, Toninho acordou assustado e esfregando os olhos sonolentos, disse:

—Mariinha, Leninha... Fui campião do pique isconde! Ninguém achô ieu amoitado nessa caxa, né memo?



*Pousar: dormir, pernoitar.
*Tuia: É o local nas fazendas onde, antigamente se guardava

Assombração da Capela Velha

04/03/2014 - enviado por: Maria Mineira leia apenas este causo 0 Comentários

Denominado Capela Velha, esse lugar é cortado pela estrada que liga
São Roque de Minas à cidade de Bambuí. O botânico naturalista francês
Saint-Hilaire, por volta de 1820, quando passou na Capela Velha em
sua viagem às nascentes do Rio São Francisco, escreveu no seu diário:
“(...) A pouca distância da fazenda do Geraldo, passei diante da
capela de São Roque, onde um padre vem de vez em quando celebrar a
missa. A capela fica isolada no alto de um outeiro e é feita de
madeira e barro, com paredes sem reboco, e seu estado era miserável.
Ao lado, foram construídos uma casinha e um rancho, para abrigar os
que vêm assistir à missa.”

Há muito tempo, ali havia uma pequena mata de grandes árvores
reunidas em poucos hectares. Os antigos afirmavam que a cidade foi
instalada lá. Pela dificuldade do acesso à água, foi transferida aqui
para baixo, onde hoje se encontra.
Cresci ouvindo histórias de assombração acontecidas naquele local.
Muitos comentavam sobre uma luz vermelha que vinha do céu, à noite.
Ouvi também sobre a boiada fantasma. Outros falam de uma árvore que se
originou quando enterraram ali uma escrava benzedeira. A cruz de um
galho verde brotou se transformando na árvore mais alta daquele lugar.
Conta-se que a árvore assombrada se dobra por terra, ajoelhando-se
toda sexta feira de lua cheia.
Movida pela curiosidade comecei a entrevistar antigos moradores e
soube de fatos interessantes. Aqui, a narrativa do senhor João (*), de
70 anos que preferiu não se identificar:
- Indesde qui ieu era minim piqueno ieu escutava o povo contá esses
causo de sombração. Lá perto di casa memo, tinha uma moitinha de bambu
qui balangava as fôia memo sem ventá. Ieu via isso, mais nunca fui
minino acismado não. Tanto qui crisci sem incomodá munto cum esses
causo de arma penada.
Certa veiz, ieu já divia tê uns vinte ano, morava na Varge Grande.
Nessa época ieu arrumei uma namoradinha que morava mei longe. Todo fim
de semana ieu ia na casa dela e pá mode chegá lá tinha que passá na
estrada da Capela Véia. Meus irmão tudo ficava mi acismano, dizeno
qui ieu ia vê arma dotro mundo, lubisome, boiada assombrada...
Ahh se um cabocrin invocado cum uma moça bunita ia alembrá de tê medo
de sombração! Ieu ria inda falava preles assim:
—Si ieu vê arma penada ieu tiro as pena dela, passo uma rastêra,
inda jogo na puêra da istrada!

Ieu passei muntas vêiz andano di noite naquela estrada. Até a minina
qu’eu namorava ficava cum medo de ieu ir simbora suzim. Num dia que
tava armano uma chuvona braba inté o pai dela disse:
—Ô João, envém chuva. Iispera a chuva passá ô intão posa aqui e dexa
pá imbora amanhã cedo.

—Não sinhô, meu sogro. Num tenho medo de nada, não!

A minina inda tentô fazê ieu ficá, mas ieu aproveitei pa rastá uma
malinha e mostrá minha corage.

—Ô minha frô, num picisa tê coidado comigo! Tem perigo de nada, não!
Num tenho medo de chuva e nem de sombração.

Dei um abraço na moça, dispidi do povo da casa, inda tomei um golin de
cachaça qui o pai dela mim deu, dispois cacei o rumo de casa...
Ieu andava dipressa, a distança até minha casa era de umas duas
légua. Os curisco riscava o céu crariando a estrada. Os truvão quais
me dexava surdo. Foi nessa hora quando um dos raio crariô o caminho
qui ieu reparei qui tinha mais gente pru perto...
Ieu tava duma banda da estrada e na outra banda avistei arguém. Ieu
nunca tinha visto pessoa feito aquela nessas redondeza. Tava mei
longe, mais deu pa vê qui se tratava de uma muiê. Ela usava um vistido
escuro quais rastano no chão, mais quando mudava os passo dava pá vê
umas canela fininha e uns pé discarço. Carregava um punhado de
imbornar chei de trem nos ombro, ês paricia tá munto pesado.
Ieu andava de cá e ela de lá da estrada, nóis nem si oiava. Os dois
andava depressa modi num pegá chuva. Acabei ficano mei sem graça, ieu
num tava carregano nadica e era uma vergonha um home dexá aquela
veiinha carregá tanto peso nos ombro.
Travessei a estrada e pedi pá ajuda ela a levá arguma coisa. A muié
nem tirô os zoios do chão, mais rancô um dos imbornar dos ombro, me
entregô e continuô a andá dipressa.
Minha Nossinhora! Ieu nunca tinha carregado trem tão pesado! O peso
daquilo qui ela levava nos ombro quais qui me discaderô! Custei a
levantá o peso do chão. Agora iue tinha qui guentá. Quem mandô ieu
oferecê pa mode carregá, né memo?
Cuntinuemo a andá... Ieu e a véia isquisita de rôpa preta. Cada um
dum lado da istrada. Ieu tava froxim! Num guentava mais aquele saco de
trem nas costa. Pu resto ieu já tava é rastano aquilo chão afora. Cê
besta de trem mais pesado sô! Paricia um saco de chumbo! Pió era qui a
muié tinha munto mais peso nos ombro e num diminuía o passo. Ieu de
cá e ela de lá... Im poco tempo nóis feiz a curva e já entremo na
istradinha qui travessava a Capela Véia.

Vô fala um trem procê Sá moça: O qui sucedeu ali, ieu nunca mais qui
sisquici na vida. Di repente, bem no meio da istrada a véia parô...
Sem mi oiá, ela acenô cum uma das mão chamano ieu pa mais perto. Ieu,
inocentim de tudo, achei qui ela às vêiz quiria prosiá mais ieu.
De repente ela estendeu o braço pa mode pegá o imbornar dela qui ieu
tava carregano. Ieu besta inda priguntei pa aonde qui ela ia, mode quê
ali pru perto num tinha casa. Num sei se os ripio de frio era da chuva
que caía em riba di mim, ou se me deu um farta de coragi de chegá mais
perto daquela criatura. Ieu parado no mei da estrada e ela me acenano
pra ieu chegá mais perto.
Numa hora o clarão dum relampo bateu bem im riba de nóis. Aí, nesse
prazim ieu pude vê a cara dela - si é que podia chamá aquela ossaiada
de cara. Ieu vi foi uma cavêra! Juro qui foi! Ieu num tava tonto não!
E o braço qui ela istendeu pá mode pegá os trem era só osso tamém. As
mão, os dedo! A criatura intêra era um esqueleto vestido de preto!
Peguei cum todo quanté santo qui ieu cunhicia. Ieu num era bem chegado
numa reza, mais na hora do aperto a gente reza até sem sabê.
Ieu rezano e tremeno, inté mijano pas perna abaxo, vi aquela muié de
osso tacá os trem dela nas costa, subi no barranco e sumi mata
adentro. Nunca mais fui home de passa suzim ali, nem di noite e nem di
dia. Nunca mais abusei nem fiz graça cum arma penada, luz vermêia.
Isso acunticeu de verdade, ieu vi cum esses zoios qui a terra há de
cumê.

(*)Obrigada senhor "João"!

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