Terapia com células-tronco: realidade ou futuro?

Autoria de Ricardo Junqueira Del Carlo, em 08/08/2008 As pesquisas com células-tronco são um tema polêmico que volta e meia estão na mídia ou mesmo em debates informais pelo país. Apesar disso, muita gente ainda tem dúvidas sobre o assunto. Neste artigo, o autor reponde, de forma clara e objetiva, a quase tudo que você queria saber sobre as células-tronco e não tinha coragem de perguntar. Leia e deixe sua opinião sobre o tema. 0 Comentários

O que são células-tronco?

São células primitivas que dão origem a outros tipos celulares. Possuem capacidade de auto-replicação, isto é, de gerar uma cópia idêntica a si mesma, e potencial de diferenciar-se em vários tecidos.

O que diferencia as células-tronco dos outros tipos celulares?


Em primeiro lugar, elas são células não especializadas, que se renovam por meio de divisão celular. Outra característica é que são células não diferenciadas e, portanto, não especializadas. Por fim, sob certas condições fisiológicas e experimentais, podem ser induzidas a tornarem-se células com funções especiais, tais como células contráteis do músculo cardíaco.

Com quais células-tronco os cientistas trabalham?


Os cientistas trabalham com dois tipos de células-tronco de seres humanos: embrionárias (totipotente) e adultas ou somáticas (pluripotentes), cujas funções e características são diferentes. Derivadas de embriões, as embrionárias se desenvolvem de óvulos fertilizados in vitro e doados para propósitos de pesquisa com o consentimento dos doadores. Estes embriões têm 4 ou 5 dias de idade e são, ao microscópio, uma estrutura denominada blastocisto. Já as adultas são células indiferenciadas encontradas entre células diferenciadas dentro de um tecido ou órgão, que podem se renovar e diferenciar para produzir tipos especializados. O papel primário das células-tronco adultas em um organismo vivo é manter e reparar o tecido no qual são encontradas. Diferentemente das embrionárias, que são encontradas na camada interna do blastocisto, a origem das células-tronco adultas em tecidos maduros é desconhecida.

Que avanços as pesquisas científicas com células-tronco podem trazer para a medicina?


A aplicação mais importante das células-tronco humanas é a geração de células e tecidos que poderiam ser utilizados para terapias. Muitos experimentos, ao longo dos últimos anos, têm demonstrado que elas estão habilitadas para originar tipos celulares de um tecido completamente diferente, um fenômeno conhecido como plasticidade. Exemplos de tal plasticidade incluem células sanguíneas que se tornam neurônios; células hepáticas que podem ser induzidas a produzir insulina, e células-tronco hematopoiéticas, que podem se desenvolver em músculo cardíaco.

Há rejeição do organismo às células-tronco?


Um dos obstáculos ao uso da terapia com células-tronco é a rejeição. Se num paciente injetam-se células-tronco retiradas de um embrião doado, seu sistema imunológico pode identificar essas células como invasores estranhos e lançar ataques contra elas. Usar células-tronco adultas pode superar este problema de alguma forma, já que se elas forem retiradas do paciente não poderiam ser rejeitadas por seu sistema imunológico. Mas células-tronco adultas são menos flexíveis que as embrionárias e mais difíceis de manipular em laboratório.

Em que situações as células-tronco seriam utilizadas?


As células-tronco pluripotentes podem ser usadas para testar novos medicamentos, para segurança e efeito. Uma medicação poderia ser experimentada num tipo específico de célula, para medir sua resposta mais rapidamente que qualquer teste clínico. Por exemplo, cientistas podem usar uma célula-tronco linha de câncer para investigar uma nova droga antitumor para o desenvolvimento desta doença.
Células-tronco também podem ser usadas para reparar células ou tecidos danificados por doença ou ferimento. Este tipo de tratamento é conhecido como terapia baseada em células. Uma aplicação potencial é injetar células-tronco embrionárias no coração para reparar aquelas que foram danificadas por um ataque cardíaco.
Eventualmente, os cientistas poderão até desenvolver órgãos inteiros em laboratório para substituir os que foram danificados por doenças.

Em que estágio se encontram as pesquisas de tratamentos com células-tronco?


Apenas no caso da leucemia e de certas doenças do sangue, pode-se falar efetivamente em tratamento. As perspectivas ainda são a longo prazo, pois praticamente todas as terapias se encontram em fase de testes, embora alguns resultados preliminares sejam promissores. Os cientistas ainda têm várias questões a resolver, como a possibilidade de desenvolvimento de tumores, verificada em testes com camundongos.

Em que situações os cientistas podem adquirir os embriões diretamente nas clínicas de fertilização assistida?


Por exemplo: o casal tem um problema de fertilidade, procura um centro de fertilização assistida, juntam-se o óvulo e o espermatozóide e formam-se os embriões. Normalmente, são 10, 12, 15 embriões: alguns de melhor qualidade; outros malformados, incapazes de gerar uma vida se fossem implantados num útero, vão direto para o lixo. Esses embriões descartados serviriam como material de pesquisa para fazer a linhagem de células totipotentes. A segunda hipótese refere-se aos casais que já implantaram os embriões, tiveram os filhos que queriam e não vão mais recorrer aos embriões de boa qualidade, que permanecerão congelados por anos até serem definitivamente descartados.

Em que consiste a clonagem terapêutica?


Trata-se de uma técnica que também possibilita a obtenção de células-tronco embrionárias. Consiste em retirar o núcleo de uma célula, colocar num óvulo sem núcleo para começar a se dividir, obtendo-se células-tronco com a capacidade de diferenciar-se em todos os tecidos humanos. Nesse caso, se uma pessoa sofrer uma lesão num acidente, teoricamente, pode-se conseguir uma medula nova ou qualquer outro órgão, com a vantagem de não serem rejeitados, porque têm a mesma constituição do organismo do receptor. Existem, porém, aqueles que se opõem à utilização dessa técnica porque acham que vai abrir caminho para a clonagem reprodutiva, embora esteja claro que, não havendo a transferência para um útero, nunca se conseguirá produzir um clone. Mas a principal limitação é que, no caso de doenças genéticas, o doador não poderia ser a própria pessoa, porque todas as suas células teriam o mesmo defeito genético.

Quais são os argumentos dos cientistas, do ponto de vista ético, para defender o uso das células-tronco?


1. Células-tronco embrionárias possuem o atributo da pluripotência, o que quer dizer que são capazes de originar qualquer tipo de célula do organismo, exceto a da placenta.
2. Sabe-se que 90% dos embriões criados em clínicas de fertilização e inseridos em um útero, nas melhores condições, não geram vida.
3. Embriões de má qualidade, que não têm potencial de gerar vida, mantêm a capacidade de desenvolver linhagens de células-tronco embrionárias e, portanto, de gerar tecidos.
4. A certeza de que células-tronco embrionárias humanas podem produzir células e órgãos que são geneticamente idênticos aos da pessoa ampliaria a lista de pacientes elegíveis para tal terapia. 5. É ético deixar um paciente afetado por uma doença letal morrer para preservar um embrião cujo destino é o lixo? Ao utilizar células-tronco embrionárias para regenerar tecidos de um paciente não estaríamos criando uma vida?

Como é a situação jurídica sobre a pesquisa de células-tronco no Brasil?


Acontrovérsia sobre quando começa a vida também afeta as decisões sobre a liberação das pesquisas com células-tronco no Brasil. A Lei de Biossegurança (lei nº. 11.105, de 24 de março de 2005) libera no país a pesquisa com células-tronco de embriões obtidos por fertilização in vitro e congelados há mais de três anos. Atualmente, esses embriões são descartados após quatro anos de congelamento, mas os pais devem autorizar expressamente seu uso para efeito de pesquisa. Dois meses depois, em maio de 2005, o então procurador da República Cláudio Fonteles entrou com uma ação direta de inconstitucionalidade no Supremo Tribunal Federal (STF) contra o artigo da Lei de Biossegurança que trata do uso de células-tronco embrionárias em pesquisas, argumentando que o artigo 5º da Constituição Federal garante o direito "à inviolabilidade da vida humana" e que os embriões são seres vivos. Em março de 2008, os 11 ministros do STF se reuniram para decidir sobre a questão, mas não chegaram à conclusão alguma: após dois votos a favor da liberação das pesquisas, o ministro Carlos Alberto Menezes Direito pediu vistas ao processo, prolongando ainda mais as discussões sobre as pesquisas com células-tronco embrionárias no país. Finalmente, no dia 29 de maio de 2008, por seis votos contra cinco, o STF liberou as pesquisas científicas com células-tronco embrionárias sem nenhuma restrição, como previsto na Lei de Biossegurança. A lei prevê que os embriões usados nas pesquisas sejam inviáveis ou estejam congelados há três anos ou mais e veta a comercialização do material biológico. E também exige a autorização do casal.

Como é a legislação sobre células-tronco em outros países?


Nos Estados Unidos, o tema esteve no centro dos debates das eleições presidenciais de 2004. Em 2001, o presidente George W. Bush cortou o financiamento público para as pesquisas, liberadas durante o governo do ex-presidente Bill Clinton, mas depois decidiu permitir o financiamento limitado. A lei brasileira é considerada equilibrada e está bem próxima da legislação aprovada há poucos anos em plebiscito na Suíça. Em alguns países, como a Coréia do Sul e a Inglaterra, a legislação também permite a clonagem terapêutica. 0 Comentários Ricardo Junqueira Del Carlo Professor do Departamento de Medicina Veterinária da UFV
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