Sistemas integrados de produção exigem conhecimento para mais rentabilidade

Autoria de Guilherme Viana , em 12/07/2017

Sistemas integrados de produção, como a Integração Lavoura-Pecuária e esquemas de sucessão e rotação com intensificação de culturas, podem maximizar a produtividade e o uso dos recursos naturais, mas demandam conhecimento técnico por parte do agricultor. O controle de pragas, por exemplo, deve ser pensado de maneira mais ampla, tendo em vista os sistemas adotados.


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Sistemas integrados de produção, como a Integração Lavoura-Pecuária e esquemas de sucessão e rotação com intensificação de culturas, podem maximizar a produtividade e o uso dos recursos naturais, mas demandam conhecimento técnico por parte do agricultor. O controle de pragas, por exemplo, deve ser pensado de maneira mais ampla, tendo em vista os sistemas adotados. "Com o uso intensivo das áreas, temos várias pragas que são polífagas. Insetos que atacavam até então uma cultura passaram a ter importância em outros cultivos. É o caso do percevejo barriga-verde, característico da soja, e que hoje é praga do milho segunda safra, em função do plantio do cereal em sucessão à leguminosa", analisa a pesquisadora Simone Martins Mendes, da área de Entomologia da Embrapa Milho e Sorgo (Sete Lagoas-MG).

Segundo ela, o produtor deve se preocupar com pragas das culturas como um todo. "O que você faz numa cultura para controlar as pragas pode ter efeito na outra. Essa é a prática de manejo que deve ser adotada nos sistemas", explica. Um exemplo é a lagarta-do-cartucho, principal praga do milho, que se alimenta de várias plantas hospedeiras e inclusive de algumas plantas daninhas, como a buva (leia aqui matéria sobre o assunto). "Se não há controle adequado de plantas daninhas numa área, e o milho é plantado nela, a lagarta aparece antecipadamente. Com a braquiária, sendo utilizada como planta de cobertura, pode acontecer a mesma coisa. Há necessidade de se fazer a desseca antecipada para interromper o ciclo do inseto", afirma.

As instabilidades climáticas têm agravado a ocorrência das pragas e de doenças nas lavouras brasileiras. Os enfezamentos causados por molicutes e espiroplasmas transmitidos de uma planta de milho doente para uma planta sadia por um único inseto-vetor, denominado de cigarrinha-do-milho (Dalbulus maidis), podem ser considerados um dos principais problemas enfrentados pelos agricultores desde a safra passada. "Onde se plantou milho RR aparecem dificuldades de se controlar o milho tiguera, que pode servir de reservatório do inseto e, consequentemente, dos enfezamentos para outros cultivos de milho nas imediações", explica a pesquisadora.

Em relação às cultivares transgênicas Bt, cuja adoção em 2016 chegou a 88,4% do milho plantado no País, segundo dados do CIB (Conselho de Informações sobre Biotecnologia), das seis proteínas com ação inseticida, uma (Cry 1F) já perdeu sua efetividade. "A da área de refúgio é necessária para que haja redução da chance de quebra da resistência, com plantio de no mínimo 10% da área plantada com milho convencional. Deve também ser próxima da área semeada com milho Bt, pois a distância média do voo das mariposas é de 800 metros. A grande questão hoje é como prorrogar a validade e eficácia dos transgênicos", alerta Simone Mendes. Já para o controle da cigarrinha-do-milho, algumas medidas são tratar especificamente as sementes com inseticida e evitar o plantio de cultivares suscetíveis e em plantios escalonados (veja outras recomendações aqui).

Enfezamentos por molicutes e cigarrinha no milho

Os enfezamentos são doenças do milho causadas pela infecção da planta por microrganismos denominados molicutes (classe Mollicutes-Reino Bacteria), que são um espiroplasma (Spiroplasma kunkelii) e um fitoplasma (Maize bushy stunt). Há dois tipos de enfezamentos: a doença denominada enfezamento-pálido (causada por espiroplasma) e a doença denominada enfezamento-vermelho (causada por fitoplasma). A distinção entre as duas em campo com base apenas nos sintomas da planta, frequentemente, é impossível. Os molicutes invadem sistemicamente e multiplicam-se nos tecidos do floema da planta de milho e são transmitidos de plantas doentes para plantas sadias, pela cigarrinha Dalbulus maidis (Hemiptera: Cicadellidae).

A cigarrinha D. maidis é um inseto de cor branco-palha, podendo apresentar-se levemente acinzentada, com cerca de 0,5 cm, que se alimenta da seiva da planta de milho e realiza postura sob a epiderme da folha, preferencialmente na nervura central de folhas do cartucho da plântula. A infecção com molicutes ocorre na plântula de milho em estádios iniciais de desenvolvimento. Esses microrganismos patogênicos proliferam nos tecidos do floema e a planta apresenta os sintomas do enfezamento apenas na fase de produção. Esse inseto-vetor dos molicutes sobrevive apenas no milho e, habitualmente, migra de lavouras com plantas adultas para lavouras com plântulas recém emergidas. 

Plantas daninhas

Para melhor controle, uma das recomendações dos pesquisadores é utilizar a braquiária como planta de cobertura durante o período de pousio e realizar sua dessecação anterior ao semeio da cultura de interesse econômico. "A braquiária se caracteriza como uma interessante alternativa de planta de cobertura por reduzir a incidência do capim-amargoso e da buva, duas das principais plantas daninhas do Cerrado que podem causar perdas na produtividade de grãos", explica Alexandre Ferreira da Silva, pesquisador da área de Plantas Daninhas.

Segundo ele, essas duas espécies apresentam biótipos (indivíduos) resistentes ao glifosato e/ou a outros herbicidas de diferentes mecanismos de ação. A utilização somente de herbicidas para o controle dessas espécies pode onerar demasiadamente o custo na propriedade. Em área experimental da Embrapa Milho e Sorgo, onde foi realizada a sobressemeadura da braquiária ao final do ciclo da soja, mesmo sem um regime hídrico favorável que contribuiu para menor porcentagem de cobertura do solo, a população de plantas daninhas no período de entressafra foi muito menor que na área deixada em pousio após a colheita da soja.

Fertilidade do solo

Solo coberto é sinônimo de benefícios. Segundo o pesquisador Álvaro Vilela de Resende, da área de Solos e Nutrição de Plantas, o sistema plantio direto bem estabelecido permite que as raízes se aprofundem mais, "incorporando carbono e favorecendo a busca por água e nutrientes, além de incentivar a atividade microbiana", explica. Após o devido condicionamento com correção da acidez e adubações, de acordo com Resende, o aprofundamento das raízes contribui para manter o chamado "perfil de alta fertilidade", no qual os solos armazenam mais água e matéria orgânica, além de nutrientes essenciais. Em algumas situações, essa melhoria é tão expressiva que permite ao produtor reduzir ou até mesmo deixar de adubar por uma ou mais safras, sem perdas significativas de produtividade (leia matéria aqui).

A intensificação dos sistemas aliada a práticas de manejo conservacionista pode ser estratégia para produzir em condições de estresse hídrico. De acordo com o pesquisador Emerson Borghi, da área de Fitotecnia, a ideia da intensificação é trazer ganhos de produção na área ao longo do ano. Segundo ele, os benefícios são a possibilidade de produção de grãos ou silagem com uma forrageira subsequente para pastejo, tendo ainda o maior armazenamento de água e de nutrientes e a descompactação do solo como fatores para melhoria do potencial produtivo da área (saiba mais sobre o assunto).

Os temas foram tratados durante a última edição da Semana de Integração Tecnológica da Embrapa Milho e Sorgo e este seminário contou com o apoio da Fundação Agrisus.

Intensificação do uso da terra pode gerar mais renda ao produtor

A intensificação dos sistemas produtivos vem sendo defendida por pesquisadores como alternativa de produção de alimentos, ao mesmo tempo que pode otimizar os recursos naturais disponíveis. O pesquisador Emerson Borghi, da Embrapa Milho e Sorgo (Sete Lagoas-MG), explica que a intensificação ecológica aliada a práticas de manejo conservacionista pode ser estratégia para produzir em períodos de restrição hídrica. “Quanto maior o tempo de adoção, maiores serão os benefícios”, diz.

A intensificação ecológica pode ser entendida, segundo ele, como um sistema de produção que satisfaça o aumento previsto de alimentos, tendo em vista a necessidade de preservação do meio ambiente. São exemplos de cultivos intensificados os sistemas de produção conhecidos como consórcios, como a integração lavoura-pecuária e a integração lavoura-pecuária-floresta, além das práticas de sucessão e de rotação de culturas, com suas diversas opções de cultivos.

A exploração do ambiente produtivo por maior período de tempo no mesmo ano visando a maximização da produtividade e a otimização dos recursos naturais traz várias outras vantagens, na visão do pesquisador. “Menor incidência de plantas daninhas e doenças, melhoria das condições químicas, físicas e biológicas do solo, diversificação econômica, aumento de renda e menor dependência do clima para sucesso da atividade agrícola são os principais atrativos”, enumera Borghi.

Para ele, as épocas de consórcio e de semeadura das culturas para a implantação de sistemas integrados devem ser adaptadas às condições de cada região. “Os resultados demonstram que um esquema de rotação de lavouras com pastagem é boa estratégia tanto para incrementar a produtividade vegetal e animal na região quanto para possibilitar colheitas pelo menos razoáveis diante da ocorrência de veranico, que é um problema cada vez mais perceptível”, explica o pesquisador.

Dessa forma, o consórcio entre milho, sorgo ou soja e capim em sistema de plantio direto é uma alternativa de sistema integrado, o que pode resultar em resultados satisfatórios no uso da pastagem entre quatro e cinco meses por ano após a colheita da cultura principal, possibilitando até três safras anuais, dependendo da região. A introdução de outro componente, o florestal, ainda traz a possibilidade de um rendimento extra, na fase de comercialização ou aproveitamento do produto gerado: lenha, madeiras para serem aproveitadas na própria fazenda, ou com fins mais nobres, para a indústria moveleira.

Pragas e doenças

Ao mesmo tempo em que os sistemas intensificados de produção podem gerar mais renda e otimizar os recursos naturais, o produtor deve ficar atento ao que é denominado de “ponte verde”, que é a sequência ininterrupta de lavouras safra após safra, o que pode beneficiar o surgimento de pragas e doenças. Ao plantar soja sobre soja ou milho sobre milho, por exemplo, o produtor cria um contexto que favorece esse problema. “As lagartas, de modo geral, já estão adaptadas a diversos tipos de hospedeiro”, explica o pesquisador Ivênio Rubens de Oliveira, da Embrapa Milho e Sorgo.

De acordo com ele, a resistência das cultivares a pragas e a doenças deve ser constantemente avaliada. “Se quebrou a resistência, a orientação é não plantar esse determinado material”, afirma. Uma das soluções, segundo o pesquisador, é o constante monitoramento das lavouras e a tomada de decisão no momento certo. “Se o produtor não souber monitorar e não souber o exato momento de fazer o controle de pragas ou doenças, a eficácia dos materiais diminuirá consideravelmente”, avalia. Uma das saídas é o Manejo Integrado de Pragas (MIP), com o uso de armadilhas nas plantações para verificar a presença de mariposas (insetos adultos da lagarta-do-cartucho, principal praga da cultura do milho) e indicar quando implantar o controle biológico, por exemplo. Leia mais sobre esse último assunto aqui

(Publicado em Jornal Eletrônico da ILPF - Ano 08 – Edição 41 – Julho de 2017)

 

0 Comentários Guilherme Viana é jornalista da Embrapa Milho e Sorgo
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