Estágios de vivência: ferramenta de ensino e aprendizagem

Autoria de Estela da Silva Maia; Laura Cristina Pantaleão e Suenia Cristine Campos; José Claudio Souza Alves, em 12/01/2018

Os padrões de ensino das universidades ainda passam por processos de engessamento, sendo notável a falta de investimento e comprometimento das instituições com o retorno dos conhecimentos adquiridos para a sociedade em geral. Diante disso, são necessárias propostas metodológicas voltadas para vivências interdisciplinares, onde haja a troca de experiências e conhecimentos entre o estudante e a comunidade.


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Publicado em Revista ELO - Diálogos em Extensão   
Volume 06, número 03 - dezembro de 2017

 

Introdução

É notável a dissociação entre ensino, pesquisa e extensão no ensino público federal, onde a maior parte dos recursos é voltada para o investimento de pesquisa em centros de excelência (CASAGRANDE, 2000). Diante das grades curriculares engessadas do atual sistema de educação pública no Brasil e da desvalorização de diversas áreas de pesquisa, faz-se necessário discutir qual o papel da extensão universitária no mundo acadêmico e como ela se insere como uma prática pedagógica que transforma a teoria em prática e que pode contribuir substancialmente com a sociedade.

A extensão tem como objetivo estabelecer uma relação entre universidade e sociedade, repassando o conhecimento acadêmico para todos os segmentos de forma interdisciplinar, ou seja, interagindo diferentes metodologias, profissionais e pessoas motivadas por um interesse em comum. Atividades de extensão podem levar para a sociedade os conhecimentos que a comunidade acadêmica e científica produzem, sendo uma forma de socializar e democratizar o conhecimento. Quando a universidade comunica-se com outras realidades há a possibilidade de renovar a sua própria estrutura, seus currículos e suas ações e atender às realidades das comunidades (SILVA, 1997). Dessa forma, a extensão universitária é entendida como um processo acadêmico onde toda a ação deverá estar vinculada ao processo de formação de pessoas e de geração de conhecimento de todos os envolvidos (NUNES & SILVA, 2011).

Nesse sentido, o estágio de vivência surge como uma atividade de extensão, onde os universitários aprendem com a sociedade sobre seus valores e cultura de forma que não os viole, havendo uma troca de saberes entre a universidade e o meio. Essa é uma forma que possibilita a participação efetiva da comunidade na atuação da universidade e dos conhecimentos produzidos (SILVA, 1997). No âmbito nacional existem dois exemplos bem sucedidos de estágio de vivência: O Estágio de Vivências no SUS (Ver-Sus), que é composto por estudantes e secretarias de saúde e o Estágio Interdisciplinar de Vivência (EIV) que é realizado por estudantes organizados em executivas de curso e grupos organizados, em parceria com os movimentos do campo (KRETSCHMER et al., 2013).

Atualmente, na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, os estágios e as atividades interdisciplinares de vivência têm sido construídos pelo Grupo de Estudos da Amazônia (GEA), anteriormente, essa metodologia, por muito tempo, era protagonizada por estudantes das ciências agrárias organizados em executivas de curso como a FEAB (Federação de Estudantes de Agronomia), a ABEEF (Associação Brasileira do Estudantes e Engenharia Florestal) e por grupos organizados, como o GETERRA (Grupo de Estudos e Trabalho em Ensino e Reforma Agrária) e GAE (Grupo de Agricultura Ecológica).

O GEA foi fundado em 2004 e sua proposta é estudar as diversidades da Amazônia através dos seus diferentes contextos. O primeiro estágio de vivência realizado pelo grupo ocorreu no ano de 2007 em parceria com as Casas Familiares Rurais do estado do Pará e contou com a participação de 17 estudantes da UFRRJ.

Em 2014 e 2015, o GEA, em parceria com docentes e discentes do curso de Belas Artes, realizou o curso “Iconografia da Arte Marajoara – Conexão entre ancestralidade e contemporaneidade”. O objetivo principal do curso foi proporcionar uma formação prática e teórica aos discentes sobre os princípios da arte indígena ancestral. Entre os objetivos específicos, destacaram-se: assimilar a história indígena e suas várias tendências, em especial a Arte Marajoara; conhecer o grafismo marajoara e sua estética; comparar a cultura Marajoara ancestral com a cultura contemporânea produzida por artesões de Icoaraci – Pará e interagir com ambientes socioeducativos através da convivência com os artesões na Ilha do Marajó. Dessa forma, o curso propôs uma abordagem pedagógica com um incentivo a pesquisa acadêmica, a partir de ações de ensino e extensão.

Uma das tarefas dos grupos de extensão universitária é destacar a relevância e a contribuição de atividades de extensão para a formação profissional, social e humana e mostrar que, através de práticas pedagógicas diferenciadas no ensino, é possível romper com a polarização entre o conhecimento técnico-científico e o saber popular, integrando os conhecimentos teóricos e práticos. Entender e investigar o papel das vivências na universidade pode ser visto como a principal contribuição desta para o desenvolvimento pessoal do aluno (PACHANE, 1988).

Dessa forma, o objetivo desse relato de experiência é apresentar os resultados obtidos a partir do curso de “Iconografia da Arte Marajoara – Conexão entre ancestralidade e contemporaneidade” e destacar a importância das atividades de extensão interdisciplinares como metodologia de ensino.

 

Metodologia

O curso foi realizado entre os meses de junho de 2014 e janeiro de 2015 e foi dividido em quatro etapas.

Na primeira etapa foi realizado o seminário “Uma viagem à cultura ancestral Marajoara”, com o objetivo de apresentar aos universitários a cultura Marajoara e dar início à divulgação do curso. Para além do seminário, a divulgação do curso ocorreu através de cartazes espalhados pelo campus da UFRRJ, blog e facebook.

A segunda etapa consistiu na seleção de alunos através de cartas de intenção. A turma contou com 30 pessoas, sendo 26 estudantes da UFRRJ e 4 estudantes de outras universidades e artesãos da região. A proposta foi formar uma turma interdisciplinar, portanto, não houve restrição quanto ao curso que o estudante realizava para se candidatar à vaga.

A terceira etapa consistiu em aulas teóricas e práticas que ocorreram na UFRRJ, ministradas por discentes e docentes do curso de Belas Artes. As aulas eram realizadas quinzenalmente, aos sábados, entre os meses de junho a dezembro de 2014. A temática das aulas envolvia: aspectos da cosmologia e simbologia indígena, arte popular Marajoara e esculturas indígenas.

Por fim, a quarta etapa foi a realização da vivência, onde os alunos foram ao Pará conhecer de perto a arte e a cultura do povo do Marajó. Esta teve duração de sete dias e ocorreu nos municípios de Belém do Pará e Ponta de Pedras – Ilha de Marajó. Foi dividida entre visitas, rodas de conversas, oficinas ministradas pelos artesões e também por estudantes universitários

Para o presente estudo aplicou-se um questionário através de entrevistas gravadas com estudantes que participaram do curso no intuito de compreender sobre como as atividades desenvolvidas contribuíram com a formação profissional e pessoal dos mesmos. Para nortear as entrevistas usamos as seguintes perguntas: “Já participou de alguma atividade semelhante ao que foi proposto no curso?” ”As atividades desenvolvidas no curso e na vivência contribuíram para sua formação profissional e pessoal?” ”Indicaria esse tipo de metodologia como prática pedagógica na universidade?”

 

Resultado e Discussão

A vivência apresentou ser muito mais que um projeto de extensão, também foi um instrumento ligado a formação possibilitando o acesso a diferentes formas de construção do conhecimento científico e valoração do conhecimento local. Os resultados são bastante distintos, pois a turma era composta por estudantes de cursos diferenciados, que por sua vez, tinham diferentes olhares e concepções sobre o que vivenciaram. Para os estudantes de Belas Artes, essa foi a única proposta vivenciada por eles que envolveu o estudo teórico e prático no campo das Artes realizado fora do mundo acadêmico. Além disso, a vivência lhes permitiu entender que nas artes é importante se conhecer in loco aquilo que os interessa. Estes conseguiram enxergar muito além da estética e do visual, porque vivenciaram a sociologia, pedagogia, filosofia e antropologia. Eles relataram também que, durante uma semana de vivência, foi possível observar e sentir o que haviam aprendido durante os sete meses de aulas na UFRRJ.

Segundo uma estudante do curso de Zootecnia, essa experiência foge de tudo que ela viveu dentro da universidade. Mesmo que o tema do curso não tenha sido direcionado especificamente para a sua área, ela conseguiu visualizar práticas de zootecnia por meio do contexto cultural do Marajó, como exemplo, o hábito alimentar, que é a base de peixe e através das criações de búfalo, que são comuns na região.

Uma estudante de Engenharia Florestal partilhou que a vivência foi fundamental para o curso, pois permitiu a troca de experiência e o trabalho em grupo. Relatou que, no início do curso, não conseguia enxergar a engenharia florestal devido ao tema, porém, a vivência de caráter interdisciplinar, lhe permitiu agregar um pouco de cada curso, inclusive do seu.

Segundo os estudantes de Agronomia, essa dinâmica contribuiu para conhecer outras pessoas, outros cursos e conhecer o contexto que envolve a arte marajoara. Para eles, a vivência permitiu a troca de experiências com as comunidades tradicionais e uma percepção sobre a importância e o valor do conhecimento que, em muitos casos, não é valorizado nos centros urbanos. Uma coisa que mais chamou a atenção foi a observação no contexto agronômico, principalmente na relação das pessoas com a terra e a produção. Essas atividades envolvem toda a família e acabam influenciando diversos aspectos da rotina e modo de vida delas; por exemplo, muitas crianças e adolescentes não vão às aulas na época de coleta dos frutos, pois está associada ao tempo fisiológico das plantas de interesse na região.

Todos os estudantes entrevistados recomendaram esse tipo de atividade como proposta metodológica de ensino alegando ser uma prática bastante enriquecedora que permite ao estudante relacionar teoria, prática e conhecimento local. Além disso, também permite estabelecer uma relação coletiva, transdisciplinar e realizar uma quebra de estereótipos sobre quem é o verdadeiro detentor do conhecimento. Outro elemento que também marcou os estudantes entrevistados foi a receptividade e o carinho do povo que os recebeu em Belém e em Ponta de Pedras na Ilha de Marajó, demostrando uma abertura para o diálogo e para a troca de experiências.
 

Conclusão

A vivência mostrou-se uma importante ferramenta de ensino e aprendizado, dado que contribui para a caminhada conjunta entre o conhecimento teórico e prático, podendo ser utilizada como uma prática pedagógica aplicável a qualquer área de conhecimento.

Apesar dos resultados positivos, esse tipo de metodologia ainda possui inúmeros desafios, pois grande parte das ações com esse cunho é provocada por estudantes que, na maioria das vezes, não são abraçados e incentivados pelas universidades públicas, dificultando sua concretização e, para superar esses desafios, é importante um maior incentivo tanto por parte do corpo docente quanto da própria instituição de ensino, porque poucas são as atividades desenvolvidas para fora dos muros da universidade. Além disso, destaca-se a importância e a necessidade de um retorno dos grupos que desenvolvem metodologias diferenciadas de ensino para a comunidade acadêmica e para a sociedade a fim de dar visibilidade a essas práticas.

 

Agradecimentos

À professora Katarina Comedouro (Pro - reitoria de extensão da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro), por acreditar no GEA e subsidiar uma grande parte dos custos do evento;

Fátima e Edna, pelo acolhimento e ensinamento durante nossa estadia em Ponta de Pedras;

À professora Helena Quadros, por articular nossa visita ao Museu Emilio Goeld e por todo ensinamento adquirido;

Eliana Santos, Gilvan e Dona Dina, por dedicarem parte de seu tempo durante nossa estadia em Belém para nos acompanhar e nos permitirem degustar pratos típicos maravilhosos dessa terra querida;

A todos os estagiários que embarcaram em mais uma jornada de ensino e aprendizado;

E, por fim, a todos os artesões e pesquisadores que estiveram conosco durante nossa vivência, muito obrigado por nos permitir aprender um pouco mais com vocês.
 

Referências

BOTOMÉ, S. P. (2001) A noção de comportamento. Em H. P. De Moraes Feltes e U. Zille. Filosofia: Diálo-go de Horizontes. Porto Alegre. EDIPUCRS, 2001 (p. 685 -708).

SILVA, O. O que é extensão universitária. Integração: ensino, pesquisa e extensão, São Paulo, v. 3, n. 9, p. 148-9, maio 1997.

SOARES, V. L. A. O papel social das IES: contribuição do ensino superior particular. Revista do Centro de Estudos Sociais Aplicados, Belém, n. 6. 2003.

PORTILHO, E. S. Pedagogia da Alternância: Educação e Natureza em Casas Familiares Rurais da Região Tocantina-PA. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal Rural do Rio Janeiro, Seropédica. 2008.

PACHANE,G.G. A universidade vivida: a experiência universitária e sua contribuição ao desenvolvimento pessoal a partir da percepção do aluno. Dissertação de Mestrado – Universidade Estadual de Campi-nas, São Paulo. 1988.

NUNES, A., L., P., F.; SILVA, M., B., C. A extensão universitária o ensino superior e a sociedade. Mal-estar e a sociedade. Barbacena, n. 7, p. 119 – 133. 2011.

KRETSCHMER, C., A.; Rodrigues, G., O.; Martins, R., V. Estágio Interdisciplinar de Vivência; uma expe-riência na realidade rural brasileira. Relatos de Experiências: Mídia e Tecnologia na Educação do II Encontro de Educomunicação da Região Sul. Ijuí/RS. 2013.

GRUPOS ORGANIZADOS. Amazônia em pauta. Nova Revista de extensão da UFRRJ.. Seropédica. RJ n. 6, p. 6 – 7, out. 2012;

0 Comentários Estela da Silva Maia; Laura Cristina Pantaleão e Suenia Cristine Campos; José Claudio Souza Alves respectivamente graduada nos cursos de Agronomia; graduadas em Engenharia Florestal; doutor em Sociologia. Docente na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ)
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